Era para ser mais uma edição de jornal, deixada na porta pela vizinha. Mas foi por meio da publicação que Julia Beletatti, de 17 anos, encontrou um norte para a vida profissional. Reprovada no vestibular para Artes Cênicas na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), não sabia o que fazer após o ensino médio. Foi por uma propaganda que soube dos cursos superiores de tecnologia, até então desconhecidos por ela. A modalidade de ensino não é novidade. Existe desde a década de 60 e, nos últimos anos, ganhou fôlego e força renovados. Hoje, diante da demanda do mercado por profissionais qualificados, são escolha acertada para quem busca formação com foco mais específico e duração menor do que a de bacharelados e licenciaturas.
A oferta é grande e disciplinada pelo Catálogo de Cursos Tecnológicos, do Ministério da Educação e Cultura (MEC). Dos 102 cursos que constam da última edição, de maio de 2009, Julia ficou entre dois: Eventos e Gastronomia. Escolheu o primeiro. Agora, prepara-se para o início das aulas, com o incentivo extra de uma bolsa integral de estudos, graças a seu desempenho no processo seletivo (passou em terceiro lugar). De olho no futuro, a jovem faz planos: “Quero montar uma empresa de eventos para casamentos, 15 anos, aniversários, chás de bebês, atividades empresariais.”
Irmão de Julia, João Vitor Beletatti, de 22 anos, segue os passos da futura tecnóloga em Eventos. Cabeleireiro desde os 14, começou a cursar a faculdade de Farmácia e Bioquímica. Desistiu antes de completar o segundo semestre. Ano passado, repensou seus objetivos e decidiu tornar-se tecnólogo em Marketing. “Hoje, cabeleireiro é marketing. Tem que conversar, compartilhar informações, trabalhar com venda de produtos”, justifica.
Na escolha do curso, pesou o desejo de ter o próprio salão e a consequente necessidade de saber comandar e usar os conhecimentos para prosperar. “Quero ter um salão, mas não estou disposto a fazer quatro anos de Administração e mais quatro de Marketing para depois abrir o negócio”, explica Beletatti que, por ora, pretende usar o aprendizado nas aulas para atender melhor os clientes.
O caso dos irmãos Beletatti é exemplo do interesse dos brasileiros pelos cursos superiores de tecnologia. Um interesse que não para de crescer. O Censo da Educação Superior 2008 aponta um salto relevante no número desses cursos: passou de 636, em 2002, para 4.355, em 2008, um aumento de quase 685%. Com uma oferta bem maior, é natural que a quantidade de matrículas também cresça. De acordo com o levantamento do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), nesse mesmo período, o número de matrículas subiu de 81.348 para 412.027. A maior fatia ficou com as instituições privadas – 83,3% do total, ou 343.166 matrículas.
“O aumento se deve ao processo de desenvolvimento econômico do País para o qual não se estava preparado adequadamente. Há déficit de mão-de-obra para um processo prolongado e sustentado de desenvolvimento econômico”, analisa Eliezer Pacheco, secretário de Educação Profissional e Tecnológica do MEC. Para ele, o mercado sente falta de profissionais com um perfil mais técnico. É aí que entra o tecnólogo. “Ele não é menos qualificado; é mais especializado”, ressalta. Pacheco acredita que a expansão deve permanecer nos próximos anos, por conta do crescimento da economia brasileira, estimado em cerca de 5% para 2010, e dos investimentos do governo na área.
Para o gerente de administração dos cursos superiores do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial de São Paulo (Senai-SP), Newton Luders Marchi, a crescente busca por cursos de graduação tecnológica é sinal da descoberta dessa formação pelo mercado de trabalho. “O mercado está percebendo o diferencial desse profissional e os cursos estão passando por um processo de consolidação”, destaca.
Experiência formalizada
Embora não faça distinção entre tecnólogos e formados em bacharelados e licenciaturas, a pesquisa “A Contratação, a Demissão e a Carreira dos Executivos Brasileiros”, realizada ano passado pela Catho Online, faz coro com os que relacionam formação e empregabilidade. Dos 16.207 entrevistados, 71% tinham pelo menos a formação superior; em 2007, foram 63%. “Os cursos tecnológicos trabalham exatamente a especificidade do curso. Atualmente, as empresas brasileiras buscam uma experiência que seja formalizada, e os cursos tecnológicos de curta duração ajudam a formalizar mais rapidamente a experiência deste profissional”, diz Etienne Carvalho de Castro, coordenadora da Catho Educação Executiva.
A supervisora de contas a receber Vânia Aparecida Mira dos Santos, de 30 anos, integra uma turma que estava no mercado e precisou se dedicar aos estudos. Uniu a exigência do emprego por um curso superior com a necessidade que sentia de se qualificar. Pesquisou os cursos disponíveis e optou pelo de Tecnologia em Gestão Financeira, com uma grade que satisfazia as necessidades da profissão. Prestes a iniciar o terceiro semestre, acredita que o cenário está bom para os tecnólogos, graças à formação em menor tempo, à ênfase na parte técnica e ao ingresso mais rápido na profissão.
A exigência do mercado de trabalho também levou Cauê Calvet, de 18 anos, a procurar um curso superior de tecnologia. O estudante já se interessava pela área de informática e o emprego foi o empurrão que precisava para ir à escola. Como tinha que estar na faculdade para começar a trabalhar, verificou qual curso atenderia às suas necessidades. Encontrou no superior de Tecnologia em Redes o que procurava. “O profissional trabalha com segurança de informações, infraestrutura de redes e redes em geral. O curso é o único que ensina essas coisas”, observa Calvet, que se prepara para iniciar o terceiro semestre.
Roseli das Dores Ribeiro, de 34 anos, é uma das que mudaram de área graças à graduação tecnológica. Quando começou a trabalhar na Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento (Sanasa) era auxiliar-administrativa. Mudou suas atribuições depois de se formar tecnóloga em Saneamento Ambiental pela Unicamp. Hoje, trabalha no setor de micromedição, área da autarquia responsável pelos hidrômetros. Além de procurar irregularidades, atende o público.
Questão de foco
De acordo com Orandi Nina Falsarella, diretor do Centro de Ciências Exatas, Ambientais e de Tecnologias (Ceatec) da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), a principal diferença dos cursos superiores de tecnologia em relação ao bacharelado é que o primeiro é mais prático do que teórico, mais voltado ao mercado profissional. “Tem fundamentação teórica, porém mais profundidade em determinado assunto. Há mais exemplos práticos, mais estudos de caso e possibilidade de receber certificações intermediárias, que habilitam o aluno a trabalhar no mercado”, exemplifica.
A ligação com as necessidades do mercado e a aplicabilidade são destacadas também por Angelo Luiz Cortelazzo, responsável pela Coordenadoria de Graduação do Centro Paula Souza, que administra as Faculdades de Tecnologia (Fatecs). Ele ressalta ainda a especificidade dos cursos. “Uma pessoa que se forma em biologia precisa ter noções de botânica, genética, zoologia, biotecnologia... O tecnólogo em Silvicultura, que é especializado em mudas”, compara.
Para Fernando Leme do Prado, presidente da Associação Nacional de Educação Tecnológica (Anet), a característica fundamental é a especialização. “Identificam-se e atendem-se demandas específicas do mercado de trabalho. Esses cursos são construídos a partir do que se identifica como possibilidade de empregabilidade. O bacharelado é mais generalista”, afirma. Para não errar na escolha, Prado sugere que o interessado leve em consideração o que pretende com o curso, identifique as possibilidades reais de empregabilidade e o grau de flexibilidade do ponto de vista da educação continuada.
Além do foco mais específico, outro aspecto dos cursos tecnológicos é a relação com a vocação das cidades e regiões em que são ministrados. “Por atender a demandas regionais, os cursos emplacaram com velocidade, cresceram assustadoramente”, afirma Prado, que cita o perfil do aluno como outra peculiaridade. Parcela significativa dos estudantes é mais madura, já trabalha e tem no diploma de ensino superior uma exigência do mercado, uma forma de crescer na carreira e até de mudar de área.
Prós e contras
O consultor de carreira Julio Pugliesi avalia como uma das vantagens dos cursos tecnológicos o fato de o profissional entrar mais cedo no mercado de trabalho. Se aproveitado, a empresa pode patrociná-lo para que continue estudando. Assim, o empregador retém o talento e o profissional dá continuidade à sua capacitação. “A vantagem de fazer complementação já no mercado de trabalho é o melhor aproveitamento”, comenta. Para Pugliesi, o mercado está cada vez mais aberto aos formados em graduação tecnológica, tanto pela qualidade dos cursos quanto pela remuneração, que, em geral, pesa menos na folha de pagamento.
A especialização, segundo Pugliesi, pode ser vantajosa no início, mas também pode atrapalhar o crescimento na empresa – na hora de proporcionar crescimento, a preferência é pelos generalistas. “Se for muito especializado, há o risco de o profissional ficar sempre na mesma área”, avisa. Tal situação, no entanto, não tende a ocorrer em corporações que têm plano de carreira ou que fazem chamado job rotation, que permite que o funcionário seja testado e preparado para atuar em outros setores e até assumir cargos executivos.
Outra possibilidade é a chamada carreira em Y, comum nos Estados Unidos e na Europa. “Chega um momento em que o profissional vai para a área executiva ou caminha para a especialização técnica e ganha mais como especialista na área, independentemente de não ter um cargo executivo”, explica. Mas, e no Brasil? Por aqui ainda predomina a “carreira comum”. “Mas há, sim, boa vontade de empresários e profissionais de recursos humanos em olhar para os tecnólogos e procurar aproveitar esses talentos”, diz Pugliesi.
Novidades a caminho
Diante de um cenário positivo para os tecnólogos, o MEC aposta no crescimento da rede federal. A previsão é de que haja investimentos de R$ 1,1 bilhão e que 100 escolas sejam finalizadas até o final do ano – em 2009, foram 102 unidades entregues. Campinas será uma das beneficiadas. A assessoria de imprensa da Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica (Setec), vinculada ao ministério, informa que a licitação para construção do campus campineiro do Instituto Federal de São Paulo foi homologada e a expectativa é de que as obras sejam iniciadas no final deste mês ou no início do próximo. O prazo para conclusão é de 180 dias.
Também em Campinas, a Escola Senai Roberto Mange passará a oferecer o curso de Fabricação Mecânica, com foco inédito em projetos de ferramentas e dispositivos. O diretor da escola, Pedro Humberto Contieri Filho, informa que o curso foi avaliado pelo MEC e aguarda ato do conselho para começar a funcionar. “Acredito que a faculdade de tecnologia é a grande sacada para que o País se fortaleça na questão da mão-de-obra”, analisa. Com duração de seis semestres, o curso será ministrado no período noturno e oferecerá, inicialmente, 40 vagas.
A expansão da educação superior profissional também está nos planos do governo estadual. A perspectiva é de que, até o final do ano, o número de Fatecs chegue a 52. Hoje, há 49 unidades, duas delas com início de funcionamento previsto para este semestre.
Fonte: http://cpopular.cosmo.com.br/metropole/conteudo/mostra_noticia.asp?noticia=1671178&area=2230&authent=576375D8B9EA92565174EAB8D89364