Gosto de usar a natação como exemplo quando tento mostrar o que são habilidades e competências dentro do processo educativo. Durante muito tempo li, ouvi e até escrevi, admito, sobre um processo ensino-aprendizagem. Deste jeito, separados por um hífen, para descrever as relações existentes no mundo escolarizado. Hoje, porém, tenho clareza que ensinar é uma coisa e aprender é outra. Há aprendizagem sem ensino e, muito, ensino sem aprendizagem.
Na natação a água é fundamental, assim como entrar dentro dela. Não há ensino de natação por correspondência, nem prova teórica. Aprender é o foco do processo. A avaliação é óbvia. Atravessou a piscina está aprovado. Afogou-se, reprovado. Até a auto-avaliação fica evidente. Quem acha que sabe nadar pula na água, quem não tem certeza, não pula. A graduação das notas também perde relevância. A média cinco, mínimo para promoção, que se transformou na única pretensão de um considerável conjunto de estudantes, não faz muito sentido se você tiver que pular de um barco a cinquenta metros da costa.
Outro ponto altamente relevante é que de saber nadar ninguém se esquece. Quem aprende a nadar o faz para o resto da vida, o que não acontece com quem aprende os rios da margem esquerda do rio Tocantins, que a gente esquece logo depois da prova. Nadar é uma aprendizagem significativa que só pode ser efetivada na ação. Mostrar como se faz, que é o conceito usual de aula, não produz nenhum resultado prático. Ninguém aprenderá a nadar vendo, mil vezes, o vídeo do Cesar Cielo batendo o recorde mundial de natação. Só se aprende a nadar nadando.
Diante destas evidências, tão marcante, não há como insistir em confundir educação com retenção de conteúdo, muito menos avaliar o que ficou retido na memória como se aprendizagem fosse.
Prof. Dr. Fernando Leme do Prado é doutor em Educação e presidente da ANET – Associação Nacional da Educação Tecnológica.
Artigo Publicado no Jornal Bom Dia Jundiaí em 19/08/2010